sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Velocidade - final


Phalaris



O universo da criação do PSI é tão vasto e complexo que nele cabe inúmeras teorias sobre a presumível vertente ideal para se conseguir o cavalo fora de série e cada qual pode defender seu ponto de vista apresentando inúmeros exemplos de bons resultados, mas existe um ponto comum que é o elemento catalisador da amálgama de onde pode surgir um craque e se chama “VELOCIDADE.”

Lord Derby concentrou sua criação em Phalaris, um sprinter-miler que corria de bandeira a bandeira e foi ganhador de 15 provas comuns entre 1200 metros e a milha.

Em seu livro “Il Purosangue, animale da esperimento”, Tesio escreve:
“Se em todos os 64 primeiros ascendentes de um cavalo de corrida existirem apenas stayers é certo que este cavalo jamais ganhará uma corrida decente sobre qualquer distância.” e mais adiante completa, “Sem um grande representante da milha em um pedigree será difícil de se produzir um animal extraclasse pois faltará a explosão nervosa que é sinônimo de VELOCIDADE.”

H.H. Aga Khan III, criador entre outros de Bahram e Mahmoud além de proprietário de  Mumtaz Mahal, Teresina, Blenheim, My Love, Salmon-Trout... acreditava em velocidade prolongada no tempo, é conhecida sua famosa carta na qual escreveu: “Neste momento quando todos que dirigem o turfe buscam meios para manter o prestígio do PSI tenho um conselho a dar: sejam mais cuidadosos quando jogarem água para fora da banheira. Não permitam que a criança se perca, e essa criança se chama VELOCIDADE.”, o atual Aga Khan manteve o império hípico herdado de seu pai assentando sobre suas matrizes sangue Never Bend, velocidade, velocidade e mais velocidade.

O que de forma geral se busca através da palavra “VELOCIDADE” é aquela velocidade capaz de se destacar por qualidade, seja a velocidade “pure-brilliant” dos flyers e sprinters ou a velocidade “trans-brilliant”. Não é nossa intenção e nem faria sentido considerar aqui sobre categorias de velocidade mas é clara a divisão entre os velocistas puros que apresentam maior possibilidade para transmitirem a seus descendentes velocidade explosiva e os garanhões da tribo “trans-brilliant”, que é aquela que oferece mais capacidade para sua produção exteriorizar a condição de sustentar velocidade ao longo do tempo e chegar as distâncias clássicas dos Derbies, mas na essência esses dois tipos de velocidade são frutos da mesma árvore, uma Hyperion servida por Nearco gerou a Nearctic, um puro sprinter, e esse gerou a Northern Dancer provando que em algum ponto de uma genealogia elas se fundem e complementam-se. No passado primeiro Phalaris e posteriormente Hyperion e Nearco foram os paradigmas de velocidade mais classe, Northern Dancer também era esse cavalo e hoje alguns exemplos seriam os chefs-de-race Danzig, Mr Prospector, Nijinsky e Nureyev.

Para uma melhor compreensão da relação milheiro e velocidade colocarei aqui excelente análise de Milton Lodi sobre Quartier Latin.

Um dos milheiros brasileiros de maior sucesso nas pistas foi Quartier Latin, de criação e propriedade do Haras São Bernardo, da Baronesa Marie Blanche Rotschild Von Leithner. O jóquei oficial da coudelaria era Gastão Massoli, de superior educação sempre bem vestido e atencioso com todos. Acontecia que com Massoli, sempre com boas direções o Quartier Latin corria com facilidade entre os ponteiros, e na reta final não correspondia. A Baronesa então resolveu entregar a direção de Quartier Latin a Luiz Rigoni, para muitos com destaque o melhor jóquei brasileiro de todos os tempos. Rigoni montava no regime de freio, e com um suave toque nas rédeas dominava por completo os corredores mais voluntariosos e com serenidade instigava os mais preguiçosos. Com Rigoni, Quartier Latin ficou outro, Rigoni o fazia ficar em último, em galope tranqüilo e ritmado, e quando no inicio da última reta por ele procurava, Quartier Latin acelerava rapidamente e sempre vencia com folga. Foi assim que Quartier Latin, com Luiz Rigoni, venceu em um ano o Grande Premio Presidente da República, Grupo I, em Cidade Jardim a milha internacional da semana do Grande Premio São Paulo, e no mesmo ano, venceu a mesma prova no Jockey Club Brasileiro. E mais ainda, a mesma dobradinha repetida no ano seguinte. Os menos detalhistas entenderam que ali estava um futuro garanhão de sucesso. Mas na prática sucedeu diferente, Quartier Latin não alcançou o êxito esperado. Mas por quê? Resposta simples, o bom milheiro, o realmente bom, tem que mandar na corrida desde o principio, não pode ser, digamos assim, um bom aproveitador do ritmo imposto por outros. Não é ter a obrigação de correr na ponta, é fazer parte de um bom ritmo desde o inicio, na ponta ou perto, e ainda aumentar a velocidade na última reta. A perspicácia de Luiz Rigoni logo percebeu que Quartier Latin era muito bom, mas não tinha a fundamental característica dos grandes milheiros, velocidade inicial, ritmo forte, e ainda uma brilhante reta final. Essa soma de características é privilégio de poucos”.

Isso posto temos que ter especial atenção no estudo dos pedigrees para planejar cruzamentos ou comprar animais e não apenas considerar os resultados de pistas. Partilho com aqueles que pensam que a característica mais importante para um cavalo ter sucesso como reprodutor além de campanha, um belo pedigree e tipo físico é VELOCIDADE aliada a um compromisso visceral com a vitória mesmo diante de evidentes deficiências físicas, deficiências essas que não o permitiu demonstrar em pistas a sua capacidade locomotora em plenitude, os meus exemplos para esse tipo de cavalo são BLADE PROSPECTOR e QUE FENÔMENO, o primeiro infelizmente já desaparecido é um reconhecido grande produtor de penqueiros e o segundo uma viva esperança pois certamente possui um dos hoje melhores pedigrees da reprodução brasileira. Me recordo de outro cavalo do mesmo quilate, CIGAL, a história contada pelo dr. Antonio Jorge de Camargo foi a seguinte: Harry Wragg era um bom amigo dele desde os tempos de estudante na Inglaterra e treinador de Cigal e de Psidium, esse o derby-winner da geração, mas Cigal era considerado o melhor potro da cocheira e que sua VELOCIDADE e volúpia pela vitória nos treinos era algo que Harry Wragg lhe disse nunca ter visto em nenhum cavalo que até então havia treinado, continuou que após Cigal mancar de tendão em sua única apresentação Harry Wragg o ofereceu a ele como uma certeza absoluta do sucesso na reprodução por sua psique, o indispensável "will to win", Cigal chegou ao Paraná e foi o que foi, lembram de DANZIG...